
Na noite de 23 de junho de 1858, na cidade de Bologna, na Itália, um menino judeu de apenas seis anos foi arrancado dos braços dos pais e levado para Roma por policiais do Vaticano. Eles disseram que cumpriam ordens do papa Pio IX. E era verdade. O caso resultou em muita polêmica, resumida em dois livros básicos: um é O Sequestro de Edgardo Mortara, de David I. Kertzer, publicado nos EUA, em 1998, pela editora Random, e uma peça, escrita pelo vencedor do prestigioso prêmio Pulitzer, Alfred Uhry, que se baseou no relato de Kertzer.Nenhum deles provavelmente escreveria o que escreveu, não fosse o próprio menino dar a sua versão do seqüestro quando, já velho monge, aguardava calmamente a morte num mosteiro belga, onde veio a falecer em 1940, aos 89 anos.Por que o papa ordenou o seqüestro? Porque uma empregada da família Mortara contou a uma amiga que batizara o menino de quem cuidava porque, estando os pais ausentes, ele passou mal e ela pensou que ele fosse morrer. Católica praticante que era, batizou o pirralho para que ele não morresse em pecado. A notícia chegou ao Vaticano e forças poderosas viram no caso uma oportunidade de reforçar a autoridade dos estados pontifícios, que Bologna integrava.O pai de Edgardo mobilizou todos os recursos de que dispunha e foi aos tribunais para reaver o seu filho. O papa concordou em recebê-lo no Vaticano. O pai testemunhou que o menino estava sendo muito bem tratado. Foram permitidas diversas visitas ao menino, mas a condição para devolvê-lo ao seio da família era que seus pais se convertessem ao catolicismo.Depois de idas e vindas, o papa Pio IX disse que o menino poderia escolher. E ele escolheu, diante de um pai surpresíssimo e atordoado, ficar no Vaticano e não voltar para casa. Levou então vida de seminarista, formou-se monge e ao final da vida contou a própria história.Napoleão III tentou, sem sucesso, persuadir o papa a modernizar seu Estado. As notícias do seqüestro do menino judeu em Bologna o irritaram muito. Também os Rothschild se mobilizaram libertar o menino. Tudo em vão. Na Sardenha, o conde Camillo Cavour, primeiro-ministro e idealizador da Itália unificada pelo rei Vittorio Emanuelle II, escreveu cartas condenando o seqüestro. Uma tragédia na vida da família Mortara acentuou as cores deste caso. O pai de Edgardo foi acusado de assassinar outra empregada de sua casa, Rosa Tognazzi, e foi preso injustamente. Em 1871, quando foi finalmente inocentado, morreu.O History Chanell apresentou recentemente um belo documentário sobre o caso famoso, infelizmente do conhecimento de poucos em nosso católico Brasil

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